Em entrevista ao Globo neste domingo, o candidato do PSDB derrotado na
corrida à Presidência, Aécio Neves, diz que depois de olhar tanto no olho da
adversária que o derrotou na campanha mais acirrada da história do Brasil não abdicará de
seu papel de fazer oposição. Admite erros. Mas diz que, pela primeira vez, o PT
enfrentará uma “oposição conectada com a sociedade, e isso os assusta”. Confira os principais trechos da entrevista concedida às jornalistas Maria Lima, Lydia Medeiros e Silvia
Fonseca:
Como o senhor viu a entrevista da presidente Dilma, que chamou de
lorota o corte de ministérios e de ideia maluca sua proposta de choque de
gestão?
A candidata Dilma estaria muito envergonhada da presidente Dilma. Para a
candidata, aumentar juros era tirar comida da mesa dos pobres. Três dias depois
da eleição, o BC aumentou os juros. Para a candidata, não havia inflação. A
presidente agora admite que há e que é preciso controlá-la. A candidata dizia
que as contas públicas estavam em ordem, e descobrimos que tivemos um setembro
com o pior resultado da história. A candidata dizia que cumpriria o superávit
fiscal, e agora se prepara para pedir a revisão da meta de 1,9%. Estamos
assistindo ao maior estelionato eleitoral da História. O choque de gestão, que
incomoda tanto o PT, nada mais é do que gastar menos com o Estado e mais com as
políticas fins. É o contrário do que o PT pratica. O próximo mandato, que se
inicia, já começa envelhecido. A presidente não se acha no dever de sequer
sinalizar como será a política econômica. E é curioso vermos a presidente
correndo desesperada atrás de um banqueiro para a Fazenda. Eu hoje chego na
minha casa, coloco a cabeça no travesseiro e durmo com a consciência muito
tranquila. Fiz uma campanha falando a verdade, não fugi dos temas áridos,
sinalizei na direção da política econômica que achava correta. Não sei se a
candidata eleita pode fazer o mesmo.
A oposição também não está envelhecida?
A oposição sai extremamente revigorada da eleição. A campanha teve duas
marcas muito fortes. A primeira, protagonizada pelo PT e pela candidata que
venceu: a utilização sem limites da máquina pública, do terrorismo eleitoral,
aterrorizando beneficiários do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida. Inúmeras
regiões ouviram durante meses, isso sim uma grande lorota, que, se o 45
ganhasse, seriam desfiliados dos programas. Infelizmente, essa é uma marca
perversa. Mas há uma outra, extraordinária, que é um combustível para construir
essa nova oposição. O Brasil acordou, foi às ruas. Minha candidatura passou a
ser um movimento. Nosso e desafio é manter vivo esse sentimento de mudança, por
ética.
Como atuar de forma diferente?
Pela primeira vez, o PT governará com uma oposição conectada com a sociedade.
O sentimento pós-eleição foi quase como se tivéssemos ganhado. E os primeiros
movimentos da presidente são de desperdiçar a oportunidade de renovar, de
admitir equívocos, mudar rumos. Ela começa com o mesmo roteiro: reúne partidos
para discutir um projeto de reforma política ou uma agenda de crescimento? Não!
Reúnem-se em torno da divisão de ministérios, de nacos de poder. As pessoas não
se sentam para ouvir da presidente: “Quero o apoio para um grande projeto de
país.” Era o que eu faria. A grande pergunta dos brasileiros será: para que novo
mandato se não há projeto novo de país? Para continuar distribuindo cargos e
espaço de poder para as pessoas fazerem negócios? A presidente corre o risco de
começar o mandato com sentimento de fim de festa.
O PSDB fará um “governo paralelo”?
Vamos constituir dez grupos, de dez áreas específicas, para acompanhar as
ações do governo. Comparar compromissos de campanha com o que acontece em cada
área. Queremos subsidiar nossos companheiros, lideranças da sociedade,
vereadores, governadores, parlamentares.
Isso não reforça o discurso de que vocês precisam desmontar o
palanque?
Chega a ser risível ouvir o PT falar que é hora de descer do palanque. O PT,
sempre que perdeu, nunca desceu. E quando venceu também não desceu. E quem paga
a conta são os brasileiros. Cumprimentei a presidente pela vitória. Agora vou
cumprir o papel que me foi determinado por praticamente metade da população.
Vamos ser oposição vigilante, fiscalizadora, e não vamos deixar que varram para
debaixo do tapete, como querem fazer, esses gravíssimos escândalos que estão
aí.
Mas não houve acordo na CPI da Petrobras para blindar políticos, com
apoio do PSDB?
Quero dizer de forma peremptória e definitiva: vamos às últimas consequências
nessas investigações, não importa a quem atinjam. Até pelo nível de insegurança
de setores da base do governo, o que pode estar vindo por aí é algo muito, mas
muito grave. Não depende mais apenas da ação do Congresso ou da Justiça no país,
porque essa organização criminosa que, segundo a PF, se institucionalizou na
Petrobras, tem ramificações fora do Brasil. E outros países estão agindo. Nosso
papel é não permitir, do ponto de vista político, tentativas de limitação das
investigações. Se alguém pensou em algum acordo, e no caso do deputado Carlos
Sampaio ele foi ingenuamente levado a isso, será corrigido.
A desconstrução marcou a campanha. Como enfrentar isso em
2018?
O marketing petista deseduca a população porque não permite o debate. Será
que vai dar certo sempre? Queremos transformar o Bolsa Família em política de
Estado para que saia dessa perversa agenda eleitoral. Apresentamos o projeto, e
agora ficou claro porque o PT votou contra. O PT prefere ter um programa para
manipular as vésperas das eleições, como se fosse uma bondade. Há uma
manipulação vergonhosa de instituições como Ipea e IBGE. A presidente usou o
marketing de que tinha tirado não sei quantos milhões da miséria já sabendo que
a miséria aumentara. Mais um estelionato. Setembro foi o pior mês do século em
geração de emprego. Há 20 milhões de jovens sem ensino fundamental e médio.
Nossa educação, comparativamente a nossos vizinhos, é péssima. E o governo acha
que política social é o Bolsa Família. Não. Tem que ser saúde, educação de
qualidade e geração de emprego para incorporar essas pessoas ao mercado
formal.
Como o PSDB se manterá unido com uma disputa interna que se anuncia
para 2018?
Antecipar uma divisão no PSDB hoje é uma bobagem. Não tenho obsessão em ser
candidato a presidente. O que há hoje é um PSDB, ao lado de outras forças,
conectado a setores da sociedade com os quais não estávamos vinculados. Esse é o
grande fato novo. Lá na frente, o candidato será aquele que tiver melhores
condições de vencer.
Há uma nova direita indo às ruas e pedindo a volta dos militares.
Como fazer com que o PSDB não se confunda com esse movimento?
Com nosso DNA. Sou filho da democracia. O que houve foi a utilização de
movimentos da sociedade por uma minoria nostálgica que nada tem a ver conosco e
com nossa história. A agenda conservadora, antidemocrática, totalitária, é a do
PT. Esse documento do PT, lançado depois das eleições, é muito grave. Fala no
cerceamento da liberdade da imprensa, de um projeto hegemônico de país, sem
alternância de poder. Fala de uma democracia direta que, de alguma forma,
suplantaria ou diminuiria a participação do Congresso na definição das políticas
públicas. Teve um momento na campanha do meu avô Tancredo, em 1984, que pregaram
uns cartazes em Brasília com o símbolo do comunismo. Era um movimento da direita
mais radical para dizer que ele era comunista. Tancredo disse: “Olha, para a
esquerda não adianta me empurrar que eu não vou.” Ele era um homem de centro. E,
agora, eu digo: “Para a direita não adianta me empurrar que eu não vou”.
E os erros na campanha? Faltou conexão com minorias, movimentos de
base?
Faltaram poucos votos que não conseguimos por falta de estrutura. Nas
eleições municipais teremos candidatos com capilaridade em segmentos muito mais
amplos. Em dezembro, reuniremos a Executiva com esse foco. Faremos ampla
campanha, uma semana de filiação no Brasil. Com gente nas ruas, sindicatos,
universidades. Estarei em Maceió, numa grande teleconferência, para sinalizar
que o Nordeste sempre será prioridade para o PSDB. As pessoas estão procurando
saber como participar, como se filiar. Isso nunca acontecera. Voltamos a ser
depositários da confiança de parcela importante da sociedade que nunca fez
política e está querendo fazer.
Quais foram os erros em Minas? É consenso que o senhor perdeu porque
foi derrotado lá.
Ainda estou tentando entender. Meus adversários tiveram ação organizada muito
forte nas regiões mais pobres de Minas. Temos imagens de deputados com megafones
dizendo: “Aécio vai acabar com o Bolsa Família”. Os Correios não levavam nosso
material, e não estávamos atentos. Houve talvez certa negligência do nosso
pessoal. E nossa candidatura estadual também não foi bem. No segundo turno, a
força do governador eleito acabou sendo um contraponto forte. Ninguém é
invencível. Eu não sou infalível. É do jogo político. Souberam ser mais
competentes do que nós. A responsabilidade é minha mesmo. Vamos recuperar esse
espaço. Lançar candidato a prefeito em Belo Horizonte, onde ganhamos por 60% a
30%, e em todas a grandes cidades.
