O ano novo da natureza começa na primavera. A sucessão das estações marca o ritmo da vida, agora é o nascimento. São os ciclos da flora, da fauna, da sociedade e de nós todos. Na Argentina o dia da primavera é comemorado como festa nacional. Aqui, apesar da inconstância do clima, já é possível já ver as buganvílias nos parques e os ipês roxos e amarelos. Aliás, García Márquez não escrevia sem um vaso de flores amarelas na mesa. Estamos na estação dos artistas, como pintou Botticelli, ou como Vivaldi musicou. Sua “Primavera” exprime o vibrante despertar da natureza. Aqui é a estação em que Porto Alegre volta a ser a cidade sorriso, pois também já se avizinha a Feira do Livro. Arte e Natureza se unem ao som e ritmo das fraternas danças circulares.
Primavera é o símbolo dos recomeços, e pode renascer a esperança. Convém aproveitar esses tempos, é uma nova oportunidade para os que perderam a crença no dia de amanhã, e se queixam do vazio de sentido. Agora são tempos de sonhar, renovar as energias e criar um novo sentido da existência. Quando um mundo cai, convém que outro seja construído. É bom conhecer os exemplos dos que juntam forças, não se sabe de onde, e saem em busca de apoios para seguir na luta. Muitos são os que viveram dias de mortes, sofrimentos, e chorando vão a procura de novos ares. Um exemplo é o da médica do oásis da nossa cidade _ o Jardim Botânico.
Em 2009, esse Jardim festejou meio século de vida, e foi editado um livro, e entre os textos está o da médica pediatra Cândida Ontero. Relata que, em 2001, pesava 34 quilos, num momento de dor e solidão pela perda de seus entes queridos. E foi no Botânico que reencontrou seu rumo, com seus “irmãos pássaros”, “irmãs tartarugas” e a “irmã árvore”. Foi nele que se deparou com um novo sentimento de mundo, e grata escreveu: “Estamos na correnteza da vida e através dela seguimos nossa viagem”. E foi na correnteza das dores que a médica recuperou a beleza de respirar. Pôs em prática o que um dia escreveria Mia Couto: “Então, um homem só tem que ficar bem em cima do chão, beneficiar das completas raízes”. Aproveitem para percorrer as trilhas do Jardim Botânico e sentir-se integrado a natureza. Ah, e aproveitem as pontes sobre os lagos onde nadam os cisnes negros.
A primavera é a estação em que a natureza entra em aceleração criativa. São tempos de vivacidade pura, tempos de espanto. A vida exige uma paciência ativa, porque a esperança deve ser construída. Se a médica da história do Jardim ficasse em casa sentada, talvez não tivesse sobrevivido. Ela saiu em busca da mãe natureza, e nela se abraçou com força para viver. Criou histórias para sair da mortificação paralisante, e assim recuperou sua autoestima. É difícil, muito difícil, mas o alento deve ser buscado nos amigos e também nas árvores e animais. Às vezes, recordo a primeira cachorra da casa, a corajosa Keli. Muitas vezes ela aliviou momentos de amarguras e foi companheira fiel das leituras.
Por Abrão Slavutzky, psicanalista
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